Mundo cada vez mais distraído desafia apresentação na firma

Investir em um modo de comunicação atraente para prender atenção do público é essencial

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Renan Marra
São Paulo

Telefones e notebooks dão uma ajudinha, mas também são vilões de quem precisa prender a atenção de uma plateia durante apresentações corporativas. Se o jeito de comunicar não for atraente, em instantes o público vai se distrair com mensagens, fotos e vídeos.

Estudo divulgado pela Microsoft em 2015 mostrou que, no início dos anos 2000, a capacidade de atenção de uma pessoa era, em média, de 12 segundos. Em 2013, o tempo caiu para 8 segundos por causa dos efeitos da tecnologia.

Marco Franzolim, fundador da agência de apresentações corporativas MonkeyBusiness, diz que não há um consenso sobre o tempo que uma pessoa consegue manter a concentração. Para evitar distrações, ele aconselha a inclusão de slides mais impactantes e mudança no tom de voz ao exibi-los.

Referências no mundo das apresentações, as conferências TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) estabelecem limite de 18 minutos por palestra. Segundo a organização, esse é o tempo ideal para que um conteúdo seja transmitido com alguma relevância e sem cansar o espectador.

Neurolinguista e consultor em comunicação e relações humanas, Plínio Teodoro diz que é preciso estimular o público para conquistar sua atenção.

Ele afirma que recursos como imagens, sons e cheiros podem remeter o espectador a lembranças, positivas ou não, que o fazem se envolver com o conteúdo transmitido.

Esses ativadores de memórias precisam ter alguma relação com o que está sendo apresentado. Um palestrante, por exemplo, pode distribuir fragrâncias associadas a produtos de sua empresa.

Se o ambiente tiver público diversificado e o tema for leve, contratar atores para uma palestra teatralizada pode ser boa opção, diz o diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Coaching, Marcus Marques.

"Você já pensou no professor da escola de que mais lembra? No meu caso, é o de química, que ensinava com um tempero especial ao levar tubos para as aulas e misturar elementos. Na apresentação, é a mesma coisa", diz.

Em um ambiente mais sério, Marques explica que a interação com o público pode ser feita com perguntas simples, que as pessoas consigam responder levantando as mãos, por exemplo.

A técnica, diz ele, fortalece a conexão entre palestrante e público e pode criar tensão, evitando a dispersão. Deve ser aplicada em intervalos de até 21 minutos.

As piadas, afirma Marques, devem ser feitas com muito cuidado. Isso porque, se você desagradar uma pessoa, outras inconscientemente serão afetadas, em um efeito manada. "Se uma pessoa pegar o celular, outras em volta vão pegar também."

O desenvolvedor de sistemas Daniel Costa, 33, arriscou-se no humor e foi bem sucedido. Gago na infância, ele fez teatro para contornar o problema e diminuir a timidez na hora de se expor em público.

Em uma palestra feita para recepcionar novos funcionários na empresa de serviços financeiros Acesso, ele mostrou um slide que o definia como "o exorcista dos códigos" de programação computacional.

A apresentação teve também fotografias de Daniel usando uma máscara demoníaca como vocalista de sua banda de heavy metal. Os slides arrancaram risos da plateia e o tornaram popular.

"A apresentação cumpriu o objetivo que era o de quebrar o gelo. Queremos algo curto, conciso, mas que chame atenção. No geral, falta ousadia e criatividade nas apresentações", diz o diretor-executivo da Acesso Paulo Kulikovsky, chefe de Daniel.

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Ideias para capturar a atenção da plateia

Planejamento
O erro mais comum, segundo especialistas, é amontoar as informações sem pensar em um formato atraente para transmiti-las. Antes disso, o comunicador deve:

- Conhecer bem o público e, assim, customizar a linguagem da apresentação

- Fazer rascunhos e usar técnicas como "storyboard" (série de desenhos que organiza o roteiro)

- Montar a sequência de slides só depois de ter cumprido as etapas anteriores

Ferramentas

-Usar recursos que ativem lembranças do público, como imagens, sons, cheiros e gostos, para tornar a apresentação marcante

- Hoje, o PowerPoint permite a criação de vídeos e animações; esses artifícios tornam a apresentação dinâmica e podem ser dominados sem a ajuda de um profissional

- O programa da Microsoft continua a ser o mais usado nas apresentações corporativas, mas há também o Prezi, que usa zoom e movimentos rápidos

Técnicas

- Interagir com o público, fazendo perguntas e pedindo para as pessoas levantarem as mãos evita distração

- Trabalhar a entonação de voz dá dinâmica à apresentação, além de acordar os sonolentos e de chamar a atenção de quem está de olho na tela do telefone

- Falar de forma pausada é uma técnica para criar suspense e dar ênfase à próxima informação. Essa prática também evita os silêncios, que às vezes são constrangedores para os interlocutores

Fontes: Roberto Burgess, diretor comercial da Ponto PPT, estúdio de apresentações profissionais; Marco Franzolim, fundador da MonkeyBusiness, agência de apresentações corporativas; André Arcas, coaching de palco e treinamento no formato TED; Marcus Marques, diretor-executivo Instituto Brasileiro de Coaching


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